Por esse ato, Amador Bueno da Ribeira deixou nome ilustre e recebeu carta de el-rei em que lhe agradecia a lealdade. Quase duzentos anos depois, Dom Pedro I fez questão de ressaltar que foi aclamado Imperador pela primeira vez na terra do “fidelíssimo e nunca assaz louvado Amador Bueno da Ribeira”.
Voltando para o ano de 1640 (mesmo ano da expulsão dos Jesuítas do colégio pelos Camargos e mesmo ano do fim do domínio político dos espanhóis em Portugal) outro fato acirrou o conflito entre as duas famílias: Pedro Taques de Almeida, parente dos Pires, se desentendeu com Fernando de Camargo, chamado de “Tigre”. Os dois desembainharam adaga e espada no largo da matriz, hoje praça da Sé. Me parece que há muita coincidência entre os acontecimentos políticos que envolveram as duas famílias, de modo que, na nossa ótica, não há como o conflito entre as duas famílias ser um mero conflito familiar sem conotação política, como concluiu o historiador Afonso E. de Taunay em Ensaios Paulistas, 1958, para nós está evidente que tal conflito tem ligações evidentemente políticas e Atibaia nascerá de reflexos deste conflito.
Em 1641, mesmo ano da tentativa de aclamação de Amador Bueno da Ribeira como Rei de São Paulo, um outro acontecimento marcou a célebre briga dos Pires contra os Camargos: Foi o assassinato de Pedro Taques, cunhado de Fernão Dias Paes e líder do partido dos Pires, pelo adversário Fernão de Camargo, chamado o “Tigre” em pleno Largo da matriz da Vila de São Paulo. Fernão de Camargo era o 1º filho de Jusepe de Camargo, tronco desta família em São Paulo e foi o 1º chefe dos seus na célebre contenda entre os Camargos contra os Pires em São Paulo que durou até 1765 quando se discutia a elevação da Vila de São João Batista de Atibaia a categoria de Vila, precisamente nessa data se deu pela última vez registros oficiais da luta entre as duas famílias em São Paulo, alimentada por mais de 100 anos.
Concluindo, na nossa visão, a célebre briga entre os Pires e os Camargos na cidade de São Paulo teve direta relação com a restauração do trono português após 60 anos de domínio espanhol. Mas vamos continuar na briga entre os Pires e os Camargos:
Os Pires, em plena beligerância, não só aos Camargos, retiraram-se para a vila de Parnaíba. Com o apoio do ouvidor-geral do Rio de Janeiro, João Velho de Azevedo, os Pires conseguiram a destituição de José Ortiz de Camargo do cargo de ouvidor da Vila de São Paulo. Desde então as incursões dos Pires a São Paulo, transformaram-se em batalhas sangrentas, espalhando o terror entre os habitantes. Em 1653, os Camargos foram á Bahia, sede administrativa da Colônia, pedir Justiça e obtiveram do governo-geral da colônia a ordem o reempossamento de José Ortiz de Camargo como ouvidor de São Paulo. Ortiz de Camargo retornou da Bahia “com muita gente branca e gentios”, todos armados para mais um conflito na Vila de São Paulo.
Em 1654 Ortiz aceitou a mediação dos prelados religiosos da vila para retornar ao cargo de ouvidor, não pelas armas, mas através de um “termo de composição”. No Rio de Janeiro, o ouvidor geral João Velho de Azevedo partidário dos Pires, não concordou com a medida e voltou enraivecido para São Paulo, mandando abrir devassa sobre os tumultos e crimes cometidos pelos Camargos. Sua intenção era remeter os inquéritos aos juízes da Bahia, o que representaria a indicação dos Camargo à pena capital.
Assim que soube da chegada do ouvidor, Jerônimo de Camargo que ocupava o cargo de juiz ordinário e de posse das chaves do paço municipal (como se hoje tivesse ele as chaves das sedes dos Poderes Executivo e Legislativo da cidade, posto que na época os Poderes se confundiam) abandonou a vila com destino ignorado, mas que alguns historiados (e para mim), juntamente com seu irmão Marcelino de Camargo fizeram várias incursões para o sertão paulista, mais precisamente para as margens do rio Atibaia dando provavelmente início a formação de uma fazenda e consequentemente ao povoado que resultou na vila de São João Batista de Atibaia.
Acreditamos que entre 1654 a 1660 já havia sido formada, ou pelo menos iniciada, a fazenda fundada por Jerônimo e seu irmão Marcelino. Deve ser dessa época a construção de uma sede da fazenda e ou uma capela dedicada a São João Batista Menino construída no alto de uma planície (hoje praça da matriz e rua José Lucas), pelos irmãos Camargos num local estrategicamente escolhido por questões de segurança.
Em 1664, quando o padre Matheus Nunes de Siqueira, no comando de uma bandeira que conquistou os índios guaru ou guarulhos, ao passar pela localidade conhecida como Atubaia, provavelmente deparou-se com a fazenda de Jerônimo e mesmo com o embrião do povoado no alto da planície (hoje praça da matriz e rua José Lucas) e lá deixou os ditos índios a fim de contribuírem para a formação de um povoado. Nunca saberemos se o Padre Matheus já encontrou uma capela no local, ou se a construiu com a ajuda dos índios que trazia em 1664, o fato é que, muito provavelmente já encontrou um pequeno e simples povoado no alto da colina, pois tal lugar seria estratégico para a segurança dos Camargos, que da planície controlariam a chegada de visitantes, ou pelo menos, o início da fazenda de Jerônimo de Camargo nas margens do rio Atibaia.
Padre Matheus Nunes de Siqueira saiu de São Paulo com sua bandeira em abril de 1664 e em 03 de julho de 1665 após seu retorno se apresenta à Câmara de São Paulo e comunica os acontecimentos da mesma como a catequização dos índios Guarulhos que deixou em Atubáia e recebeu as ordens da Câmara para que deixasse os ditos índios “…en povoado e termo da vila (São Paulo) na paragen chamada Atubáia e que o reverendo entregava o dito gentio, e se lhe formasse aldeia na mesma paragen donde estão.”, Portanto, o Padre Matheus deixou os índios numa paragem já existente onde não nos resta dúvida ser a fazenda de Jerônimo de Camargo que não deve ter sido citada para evitar problemas políticos na Câmara Municipal.
As disputas entre os Pires e os Camargo em São Paulo tiveram trégua a partir de 1655 através de uma provisão do Conde de Autouguia de 24 de novembro de 1655 que determinou que a câmara de São Paulo fosse composta por igual número entre Pires e Camargos. Em 1658 novamente os ânimos se exaltaram entre os membros dos dois partidos e só em 1660 acatando aos renovados pedidos da metrópole, da Bahia, do Rio de Janeiro e de São Vicente, os paulistas abandonaram as disputas beligerante
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