cidades mais belas e encantadoras do interiror paulista. Imaginei-me observando o nascimento do largo da matriz após a edificação da primeira capela em louvor a São João Batista, a construção das primeiras casas no dito largo e em seguida pela rua direita, hoje, rua José Lucas, até o Largo do Rosário. Imaginei-me observando as disputas políticas entre os Pires e Camargos, tendo em Atibaia Lucas de Siqueira Franco, meu décimo avô, partidário dos Camargos e Frutuoso Furquim de Campos, partidário dos Pires, como protagonistas. Seguindo meu passeioimaginário pela história da minha cidade, a vi ganhar um padre definitivo e tornar-se capela curada (1679), depois tornar-se paróquia com nova Igreja ou Freguesia (1701). Vi transformar-se Distrito (1747) e festiva ao tornar-se Vila (1770) ganhando Casa de Câmara e Cadeia e Pelourinho. Vi minha terra perder territórios com as emancipações de Jaguari (hoje Bragança); Nazaré, Piracaia e mais recentementeJarinu, antiga Campo Largo. A vi festejar a independência do Brasil, a Lei Áurea, a Proclamação da república e tanto outros acontecimentos da história como a revolução liberal de 1841. Enfim, através deste trabalho pude viajar nas datas, nos locais e nos acontecimentos que acompanham a reconstituição genealógica de famílias que indiscutivelmente construíram minha cidade e da qual descendo com muito orgulho. Cheguei a ver a face dos meus antepassados nessa viagem, deparando-me com uma gente forte que sem saber, construía dia a dia o paraíso quase possível que tanto amo.
Outra viagem realizada em razão deste trabalho, desta vez real e não imaginária, foi a emocionante viagem à Itália. Retornar à terra dos meus antepassados italianos, especialmente à Este e a Ospedaletto Eganeo, foi, de certo modo, fazer uma viagem ao passado. Andar pelas ruas italianas especialmente de Este e de Ospedaletto fez-me imaginar estar olhando para paissagens, construções e caminhos olhados e caminhados por muitos dos meus antepassados. Fez-me imaginar Luigi Bedore, seus pais, irmãos, avós, filhos, primos, bem como, os Basso assistindo missas em latim nas mesmas igrejas que estava eu naquela viagem… imaginei-os cultivando os belos campos daquela região, pescando nos rios que dividiam o território de Este e de Ospedaletto, andando e vivendo em Della Torre, localidades visitadas por mim;como também fez imaginá-los decidindo deixar tudo para trás: parentes, terra, amigos, para se dirigirem a desconhecida América, motivados por prováveis promessas ditas por emissários do Imperador D.Pedro II, que na verdade não passavam de agenciadores de mão de obra para substituir a mão de obra escrava tardiamente liberta no Brasil, os quais prometiam aos que decidissem deixar a velha Itália muita terra e muita fartura, exatamente o contrário da realidade da grande maioria dos habitantes do pobre Vêneto e de tantas outras regiões italianas onde se passava fome. Não tiveram dúvidas, entre continuar a vida difícil que viviam e viver num país que lhes garantiria fartura e terra, deixaram tudo para trás e podemos considerar que com isso foram um dos os últimos elementos de formação de uma nova nação e uma nova raça, a dos bravos brasileiros.
Muitos desses imigrantes jamais voltou ao velho mundo, alguns voltaram para buscar a família, como foi o caso de Luigi Bedore, que depois de vir duas vezes para o Brasil terminou seus dias em Gênova, cidade que conheceu ao embarcar duas vezes para o Brasil; outros nunca mais voltaram, como Ernesto Bedore, que como a grande maioria dos italianos, terminaram seus dias sem qualquer contato com além mar. Cada família de imigrantes adotou uma postura com relação ao velho e ao novo País, uns enviaram fotos dos novos integrantes da família nascidos em solo brasileiro aos parentes italianos ou vice-versa, outros pediram ajuda aos imigrantes, como aconteceu com uma irmã de Virginia Basso, Maria Basso, que na década de 1940 escreveu para irmã pedindo ajuda financeira para irmã imigrante. Houve também quem voltou para itália para visitar os parentes ou receber alguma herança, mas com certeza a grande maioria cortou qualquer laço com o velho continente, o que resultou na falta de informação de muitos oriundis quanto a origem de seus antepassados italianos.
Conhecer o que para mim é a minha segunda Pátria, e refazer a viagem dos meus antepassados, só que de avião, carro e trem e não a pé e de navio como fizeram, há mais de cem anos, e retomar o contato com meus parentes, foi uma das coisas mais prazerosas da minha vida.
Para se ter uma ideia do que foi a imigração de europeus para o Brasil nas últimas décadas do século XIX e primeiras do século XX, temos que 1.630.963 italianos de diversas regiões imigraram para o Brasil entre 1836 a 1979, sendo 1.260.369 somente entre 1884 a 1914, período de maior imigração. Não se sabe ao certo quantos italianos voltaram, mas estima-se que cerca de um milhão e meio a dois milhões ficaram no Brasil. Desses imigrantes, cercca de 950 mil italianos,estabeleceu-se no Estado de São Paulo, que entre o início de 1890 e a Primeira Guerra Mundial, representava um quarto da população do Estado, ou seja, 25%. Na capital do Estado essa relação no ínico do século XX era muito maior.
A primeira ‘grande’ leva de italianos, cerca de 180 sardos, chegou ao nosso País em 1836 fixando-se na Colônia Nova Itália, às margens do rio Tijucas Grande, em Santa Catarinae a última grande leva em 1947, porém, entre os integrantes da expedição de Martim Afonso de Souza já se encotravam alguns italianos como os irmãos Adorno que, saídos da Itália por motivos políticos, dedicaram-se à produção de açúcar. Outros sobrenomes italianos chegaram antes da imigração em massa como os Dória, os Cavancanti e os Accioli, e ainda hoje, muitos italianos, por inúmeras razões deixam a Itáilia para viver no Brasil, especialmente no nordeste brasileiro. Em Atibaia, na atualidade conheço dois amigos italianos que imigraram recentemente (Giancarlo Zanarotto e Franco Manes).
Hoje no Brasil cerca de 17% (dezessete) a 20% (vinte por cento) da população, ou 22 a 30 milhões de habitantes têm ascendência italiana. A cidade de São Paulo, por exemplo, é considerada, hoje, a terceira maior cidade italiana fora da Itália, perdendo apenas para Buenos Aires e Nova York. Estima-se hoje um contingente de cerca de 6 milhões de italianos e descendentes só na cidade de São Paulo. No Estado de São Paulo são cerca de 13 milhões. Eu ousariaem afirmar que sem eles o Brasil seria um outro país, sem dúvida, inferior em diversos aspectos sóciais, econômicos e até político. Não podemos estudar a
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