Jusepe foi Juiz Ordinário em São Paulo em 1611 e em 1630 já se encontrava falecido. A família Camargo deu início a uma segunda facção de poder na Vila de São Paulo alterando-se no poder da Vila com a família Pires.
Entre os filhos de Jusepe de Camargo, citamos: Fernão, Jerônimo, José Ortiz e Marcelino (esses dois últimos meus avôs em 11º grau) tornaram-se personagens importantes nas histórias de São Paulo e de Atibaia, os três últimos foram juízes ordinários da vila de São Paulo, algo equivalente ao cargo de presidente da câmara, com poderes infinitamente maiores.
O início do conflito entre as duas famílias: A partir de 1640 acirrou-se uma célebre disputa entre duas importantes famílias paulistanas: os Pires e os Camargos. Os motivos mais citados pelos poucos historiadores e obras que tratam da célebre disputa entre as duas famílias paulistas que descobrimos foram:
1 – a expulsão dos padres jesuítas do colégio São Paulo, que fundaram o dito colégio e cuja fundação deu origem a cidade de São Paulo em 1640, tendo os Pires tomado partido dos jesuítas, provocando a hostilidade da família Camargo, famosos “caçadores de bugres”;
2 – o aprisionamento do índios. Os colonizadores tinham como hábito capturar e escravizar os indígenas enquanto os jesuítas trabalhavam enfatizando a catequização das tribos, fato que nem sempre era visto com bons olhos pelos “paulistas” que via de regra viam nos índios apenas mão-de-obra escrava;
3 – a disputa pelo domínio político da câmara paulistana e consequentemente pela administração da vila paulistana por duas importantes famílias paulistanas;
4 – a restauração do trono Português e o consequente fim do domínio espanhol sobre Portugal em 1640 e
5 – mero conflito familiar sem ligação política decorrentes da rivalidade entre os chefes dos clãs acentuados a partir da morte acidental ou pretendida de Leonor Camargo por seu marido Alberto Pires, que também matou seu cunhado Antônio Pedroso de Barros. Há versões que afirmam que Pires teria atingido sua mulher por acaso, e, sem saber como justificar sua morte, matou também o cunhado, acusando os mortos de adultério e a partir daí os Camargos decidiram vingar essa morte sem nenhuma conotação política.
Na nossa ótica, embora não haja documentação que permita afirmar como verdade histórica, a célebre disputa entre as famílias Pires e Camargos que oficialmente teve início com a expulsão dos jesuítas do colégio São Paulo e acirrou-se com a morte de Pedro Taques, era reflexo de um novo cenário político que se deu com o fim do domínio espanhol no reino de Portugal e da consequente disputa política pelo controle administrativo da vila de São Paulo.
Portanto, para entendermos o conflito entre os Pires e os Camargos em São Paulo é necessário compreendermos o contexto histórico e político da época.
No mesmo ano de 1640, chegava ao fim o domínio espanhol em Portugal e o Brasil, como colônia portuguesa deixava de ser governado pela Espanha, o que acontecia desde 1580. Vamos aos fatos que geraram esse domínio espanhol:
Em 1578 morre o jovem Rei português D. Sebastião que foi sucedido por seu tio-avô D. Henrique, cardeal da igreja católica e que ao morrer em 1580, como também não tinha descendentes como D. Sebastião fora sucedido por D. Filipe da Espanha, dando início a dinastia Filipina (dinastia dos três reis Filipes) ou dinastia dual, ou seja, dois reinos (Espanha e Portugal) e um único Rei.
Em primeiro de dezembro de 1640, após 60 anos de domínio Espanhol em Portugal, deu-se a restauração do trono Português, com o início da quarta e última dinastia do trono Português, com a proclamação de D. João IV como Rei de Portugal, pondo fim o domínio Espanhol naquele País.
Ora, a cidade de São Paulo, como a principal cidade do interior da capitania de São Vicente, então colônia portuguesa, viveu entre 1580 a 1640 sob o domínio político da Espanha. Na cidade de São Paulo, os descendentes dos espanhóis gozam de certos privilégios e vantagens sob os descendentes de portugueses. Com o fim do domínio espanhol em dezembro de 1640, os descendentes de espanhóis de São Paulo, acostumados com os prováveis privilégios decorrentes do domínio espanhol nos mandos do reino português, decidiram criar independência do novo reino Português, aclamando um descendente de espanhóis em São Paulo, o rico Amador Bueno da Ribeira como Rei de São Paulo que declinou da aclamação e decidiu obediência ao novo Rei de Portugal, frustrando os partidários do partido dos Camargos, descendentes de espanhóis de São Paulo.
Amador Bueno da Ribeira era paulista filho de espanhóis de Sevilha, foi ouvidor e capitão-mor da capitania de São Vicente em 1627. Um de seus filhos, de mesmo nome, casou-se em 1634 com uma irmã de Jerônimo de Camargo e Marcelino de Camargo, de nome Marina de Camargo (meus decavós). Fato que ilustra bem a relação de Amador Bueno da Ribeira com os Camargos. Amador Bueno da Ribeira foi aclamado Rei de São Paulo no dia primeiro de abril de 1641 pelos espanhóis e seus descendentes, que não queriam tornar súditos do Rei D. João IV de Portugal, considerado um vassalo rebelde do soberano espanhol, buscando com esse ato a secessão da região paulista do resto do Brasil, esperando talvez anexá-la às colônias espanholas limítrofes. Contudo, Amador Bueno da Ribeira recusou a honra, e com a espada desembainhada, deu vivas, como leal vassalo, ao rei de Portugal, em quem se restaurava a monarquia portuguesa depois de sessenta anos de União Ibérica.
Arrependidos do intento de tentar criar um novo reino em São Paulo, os espanhóis e seus partidários resolveram aderir ao movimento restaurador do 1º de dezembro de 1640. E assim foi D. João IV solenemente reconhecido soberano dos paulistas aos 03 de abril de 1641.
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